Crônica de uma Viagem Maluca


 

Esta que está comigo na foto ao lado é Liliane Lopes, uma grande amiga e ex-terapeuta, uma ótima psicóloga e pessoa maravilhosa, embora (ou por ser) um tanto doida e absurda – mas adoro mulheres assim porque me fazem rir, divertem e são um contraponto à minha racionalidade. Mesmo quando nossa relação era profissional, Liliane sempre teve a idéia fixa de correr o mundo comigo, da qual eu não gostava nada porque implicava uma intimidade que, na época, não tinha com ela. Em 1997, ela fez uma viagem à Europa – que sempre sonhei em conhecer –  e voltou querendo ir lá comigo, ao que não dei a menor importância pois outros amigos já haviam tido vontade de viajar comigo, nenhum o fez e viajar ao Velho Continente estava completamente fora de cogitação. Porém, Liliane falava a sério e, no ano seguinte, começou a imaginar formas de concretizar tal idéia; eu achava aquilo uma loucura e ria de incredulidade, mas não deixei de me entusiasmar e fazer o possível para o projeto dar certo, afinal era um sonho que estava para se realizar e, nessas circunstâncias, não havia como ser racional; também por ser um sonho, minha família não se opôs e até ajudou a concretizá-lo.



Financeiramente, essa viagem – realizada em outubro de 1998 – foi viabilizada porque, pouco antes, um parente saldou uma antiga e grande divida que tinha comigo. Algumas pessoas nos aconselharam a levar alguém para cuidar de mim nessa viagem, conselho que não seguimos porque achamos erroneamente que ela teria condições físicas e psicológicas para agüentar o esforço. Para complicar, por inexperiência e sobretudo falta de opção levei uma cadeira de rodas – que, aqui no Brasil, só uso em shopping centers – bastante pesada, que requeria muito esforço para ser conduzida e ser colocada e retirada dos carros. Por essas razões, Liliane quase teve um esgotamento físico e pensamos seriamente em voltar ao Brasil no meio da viagem. De certa forma, fui mais responsável (e mais maluco) do que Liliane por esse quase fracasso, por ter muito mais noção dos problemas que poderiam acontecer.



Ao entrarmos no avião, Liliane me deu logo um susto dizendo que não havia conseguido reservar hotel em Paris, o que fez ficar me perguntando "será que ela sabe realmente que está viajando com um deficiente físico?!"– mas não tivemos problema nessa questão. Também não houve dificuldade em nos locomovermos nos aeroportos europeus pois, quando há uma pessoa com deficiência, o procedimento padrão das companhias aéreas é disponibilizar um funcionário para conduzir a cadeira de rodas e ajudar com as bagagens. Começamos a viagem por Bruxelas, onde morava a pedagoga que me alfabetizou, Tereza Lins, que tem um filho com paralisia cerebral e cujo marido, na época, era deputado do Parlamento Europeu. Passeamos demais de carro pela cidade, embora eu tivesse preferido andar mais pelas ruas – porém, isso era inviável devido ao peso da cadeira de rodas e à falta de rampas de acesso. No fim da primeira tarde, fomos à Galeria Saint-Hubert, a primeira galeria de lojas do mundo, construída em 1846-7, e fiquei encantado com a beleza das fachadas das lojas; em seguida, conhecemos a belíssima Grand Place, que remonta pelo menos ao ano 1174, durante séculos o principal mercado e centro comercial de Bruxelas, onde ficavam as sedes das guildas e corporações de ofício, e há diariamente espetáculos de sons e luzes – assisti a um desses espetáculos dentro de um café encantador. Foi maravilhoso, inesquecível! Outro ponto alto dessa etapa foi um bar cigano ao qual fomos na segunda noite, em que os músicos tocavam piano, violino e violoncelo – quase que não saímos nessa ocasião porque essa amiga fechou a porta do apartamento com a chave dentro e tivemos de esperar duas horas para um chaveiro trocar a fechadura. Para mim, os dois dias que passamos em Bruxelas foram os melhores da viagem.


Em seguida, fomos a uma cidadezinha, Hagenwill, que fica a uma hora de Zurique, na qual nos hospedamos na casa de uma amiga nossa, que é casada com um suíço e irmã de uma das minhas melhores amigas. Foi aí que Liliane quase sofreu um esgotamento físico e cogitamos interromper a viagem. Porém, estendendo nossa permanência lá por mais um dia, para Liliane se recuperar, e com muito apoio dessa amiga superamos as dificuldades, conhecemos todo o interior em torno de onde estávamos – não fomos a nenhuma grande cidade, apesar de Liliane ter proposto várias vezes irmos a Zurique, o que não achei viável – em que há belas paisagens e até estivemos numa cidade alemã, Kontanz, na fronteira com a Suíça. Como foi o país em que passamos mais tempo, deu para sentir um pouco como são os costumes locais – p. ex., comi carne de cavalo e veado, tendo de agüentar as inevitáveis piadas das duas.

Da Suíça fomos para Paris e a primeira coisa que sentimos foi stress com o trânsito infernal, depois de havermos passado cinco dias na calma Suíça. No aeroporto, encontramos um amigo meu alemão com o qual, até então, só tinha contato pela Internet e com quem passei a maior parte do tempo que estive em Paris, o



que foi muita sorte pois Liliane não estava em condições físicas para andar comigo pela cidade. Fomos logo ao Museu do Louvre que, em principio, é plenamente acessível a pessoas com deficiência e até franqueia a entrada a estas e aos acompanhantes, mas andar pelo museu de cadeira de rodas exige muito de quem a conduz porque a localização e a espera dos elevadores são bem complicados, provavelmente porque não quiseram prejudicar a arquitetura do palácio – ainda assim, foi uma das melhores passagens da viagem e conheci a ala do Louvre que mais queria ver, a da arte renascentista, inclusive a Monalisa. No segundo dia, fizemos um tour de ônibus por Paris que foi péssimo – a maioria dos locais por onde passamos ficavam à esquerda, sentei à direita e quase não os via –,visitamos a Catedral de Notredame, andamos muito pelas ruas, o que era o que mais queria fazer, e me surpreendi com a incrível beleza das mulheres parisienses. Planejávamos passar um terceiro dia nessa cidade mas não foi possível, o que foi uma pena porque Paris é mesmo deslumbrante.A última etapa da viagem foi Lisboa, sobre a qual não tenho muito a dizer porque esta cidade praticamente não tem nenhuma adaptação para pessoas com deficiência e fiquei restrito ao hotel – Liliane é quem fez uma excursão de um dia pelos arredores da cidade, embora tenha ficado preocupada comigo o tempo todo. Para não dizer que não saí em Lisboa, na última tarde fomos a um shopping center, onde Liliane se esgoelou para entrar e sair com a cadeira de rodas porque a rampa de acesso era longa e muito inclinada, e ainda ouviu alguém falar que lugar de deficiente físico era em casa!

Sempre ouvi grandes elogios da Europa no que tange ao tratamento dispensado às pessoas com deficiência, mas não é bem assim: p. ex., quando chegávamos em qualquer lugar os olhares de estranhamento direcionados a mim eram iguais aos daqui e o acesso a muitos, talvez a maioria dos locais históricos ou turísticos é ruim ou não existe devido à necessidade de não descaracterizar a arquitetura. Essa viagem não foi a maravilha que esperávamos, o que causou muita frustração e decepção, mas também conheci e aprendi muita coisa, expandi meus limites, quebrei barreiras, adquiri experiência de vida e foi uma grande aventura – enfim, foi o tipo de coisa que faz a vida valer a pena:) Sem dúvida, Liliane é uma pessoa excepcional a quem devo demais, incrivelmente corajosa e muito doida:) além de haver uma fortíssima ligação entre nós. A vida só tem graça se houver sonhos!