Data: 17 de abril de 2001

Assunto: Comparações



Janice


[C] Eu relutei muito em fazer parte de uma lista cujo principal assunto é a deficiência, tanto que eu tenho um site voltado pra literatura e mais dois páginas em dois sites de associações literárias e nunca tirei foto sozinha, de corpo inteiro, numa cadeira de rodas não tenho vergonha da minha deficiência física, mas não sinto o impulso de exibi-la e, com ela, causar constrangimento às pessoas, pois acho q todos merecem igual respeito, inclusive quem não é deficiente e quem, aparentemente, não tem problemas.



Por que uma foto de alguém numa cadeira de rodas constrangeria ou desrespeitaria um não-deficiente? Ao contrário da sua deficiência, a minha é visível em quase todas as fotos que tiro, como você pode ver no meu site, embora tenha tido o cuidado de selecionar algumas em que apareço bem, em que não nota-se a PC. Apesar disso, meu site chega até a seduzir mulheres, tanto que recentemente um amigo sugeriu que ele passasse a se chamar "pega mulher"! Pelo seu discurso – não penso só nessa mensagem – me parece que, em grande parte, você manteve a visão que sua geração tinha sobre os portadores de deficiência, com todos os preconceitos e discriminações dessa visão. Este problema não é exclusivamente seu, talvez a maioria dos deficientes introjeta tais preconceitos e discriminações em alguma medida, o que ocorre inclusive comigo – p. ex., detesto que alguém de fora, mesmo um amigo, me veja engatinhando em casa –, o que é difícil de superar.



Data: 02 de maio de 2001

Assunto: O que fazemos com nossos Preconceitos



Janice


[C] Ronaldo, você já falou " Este problema não é exclusivamente seu, talvez a maioria dos deficientes introjeta tais preconceitos e discriminações em alguma medida, o que ocorre inclusive comigo – p. ex., detesto que alguém de fora, mesmo um amigo, me veja engatinhando em casa –, o que é difícil de superar." e eu não tenho mais nada a dizer. Agradeço muitíssimo pela ajuda.



Talvez não devesse retomar um assunto que foi tratado há quase dois meses, mas ainda hoje me incomoda saber que você acha que a imagem de uma pessoa numa cadeira de rodas desrespeita os não-deficientes e creio que o que tenho a dizer a respeito interessa a todos os daqui.



O ideal de Descartes de se pensar sem preconceitos é inatingível pois o que pensamos é determinado por nosso meio e, num grau ainda incerto, por nossa biologia. Porém, até porque os resultados dessa determinação são imprevisíveis, é inegável que o ser humano é capaz de refletir, repensar seus conceitos, superar seus preconceitos e trazer à tona o que é inconsciente. Não gosto que alguém de fora me veja engatinhando em casa mas, quando meu irmão – com quem divido o quarto, no qual passo quase todo o dia – chega aqui com os amigos dele e preciso me locomover por algum motivo, saio do quarto engatinhando mesmo em vez de esperar saírem; às vezes ocorre de eu ficar sozinho em casa, um amigo meu chegar e apitar a campainha, eu engatinhar até a porta, me ajoelhar, abri-la e acompanhar meu amigo até meu quarto engatinhando. Do mesmo modo, tenho o maior complexo por babar e a imagem de um PC espástico/atáxico andando com auxílio de outra pessoa é talvez mais estranha que a de alguém numa cadeira de rodas, mas nada disso me impede de ir a restaurantes e bares sempre que possível sem me incomodar com olhares – que, em todo caso, são momentâneos pois todos vão a tais lugares para se divertir, e não para ficar olhando deficientes – que sempre atraio, e às vezes ocorre de alguém ficar encantado, maravilhado comigo pelo simples fato de ter força para freqüentar tais lugares – há três semanas, fui a um bar-restaurante refinado com um casal de amigos, ao me ver inicialmente o gerente ficou com pena mas, ao perceber que estava me comunicando com uma prancheta usando os pés, rindo e me divertindo com meus amigos, ficou fascinado comigo, sentou à nossa mesa e passou meia hora conversando conosco. Portanto, nós dois introjetamos os preconceitos que a sociedade tem contra os deficientes, mas enquanto você parece sequer ter consciência dos seus – ao menos no que se refere à imagem de alguém numa cadeira de rodas –, tento enfrentar os meus ou ao menos encará-los como tais e, tanto quanto você, acho que todos merecem respeito. Jean-Paul Sartre tem uma frase famosa que sintetiza o que quero dizer: "já não mais importa o que fizeram de ti, mas agora o que fazes com o que fizeram de ti".



A idéia de que a imagem de alguém numa cadeira de rodas desrespeita os não-deficientes é assustadoramente perigosa pois está a um passo de afirmar que os deficientes não devem sair à rua, freqüentar lugares públicos, ir trabalhar e até de que devem ser escondidos num quarto se chegar visitas em casa, afinal em todas essas situações a visão destes estaria desrespeitando os demais. Assim, acho – e creio que quase todos da Vital concordem comigo – que devemos colocar nossas fotos em sites, jornais, revistas, etc pois, além disso não desrespeitar ninguém, talvez assim os não-deficientes se acostumem conosco, aprendam toda a diversidade humana, nos encarem como gente e valorizem a própria vida deles.



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